Família Boaretto

 O título até pode parecer estranho, mas é uma referência da história dos Boarettos originados do italiano Marcellino Boaretto, que imigrou ainda pequeno ao Brasil, fincando residência no Distrito do Tupi, no município de Piracicaba-SP, onde cresceu, estabeleceu-se e deu início a esta grande família.

Biografia de Marcellino

Marcellino Boaretto, filho do fazendeiro Pietro Boaretto e Domenica Rimbano Boaretto, nasceu em San Martino di Venezze, na província de Rovigo, na Itália, em 27 de novembro de 1877.

A família de Marcellino chegou ao Brasil em 28/06/1893, no porto de Santos, a bordo do vapor Remo, buscando como objetivo a melhoria de sua situação financeira, planejando voltar em seguida. Porém, quando a família decidiu retornar à Itália, Marcellino estava em idade de servir o Exército e por isso resolveram continuar no Brasil.

 

*Registro do Museu da Imigração, com sobrenome incorreto (Boanetto)

**Nome Arpalice é desconhecido, uma vez que Pietro era casado com Domenica Rimbano.

***O nome de Marcellino aparece no registro como sendo Marcelo.

 

 

 Livro Hospedaria Pietro Boaretto Boanetto

 Livro da Hospedaria do Imigrante, com o registro da chegada de Pietro e família.

 

 

Dados do Vapor Remo, que trouxe a família de Pietro

 

Com quatro contos de réis a família comprou um armazém próximo ao bairro Dois Córregos, que, sendo único no lugar, progrediu bastante. Os clientes italianos eram atendidos por Marcellino e comiam macarronada, tomavam vinho e jogavam baralho. Já os clientes brasileiros eram atendidos por Romano, seu irmão, e comiam feijão e bebiam pinga enquanto batucavam.

Marcellino casou-se em primeiras núpcias com Maria Dezorzi, com quem teve quatro filhos nati-mortos. Tempos depois, tendo ficado viúvo, Marcellino casa-se aos 29 anos em segunda núpcias com Paschoa Dezorzi, com 18 anos de idade, em 24 de novembro de 1906[1], irmã de sua primeira esposa. Paschoa Dezorzi era natural do município de Piracicaba-SP e filha de Luigi Dezorzi e Pedron Regina.

Registro de nascimento de Marcellino

 

Do segundo casamento nasceram os filhos: Antonio, Maria, Emma, Pedro, Rinaldo, Luiz, Anna, Romano, João, Elvira (falecida com 01 mês de vida) e Mário.

Segundo publicação em um jornal local do Distrito de Tupi[2], em um certo dia, na primeira década do século XX, Marcelino saiu para caçar pela região com um compadre e do alto de um morro ele avista as terras abandonadas de uma fazenda com uma grande plantação de café. Encantado com a beleza do lugar afirmou sua vontade de possuí-la.

Marcellino, sua esposa Paschoa e o primogênito Antonio continuaram administrando o armazém por mais algum tempo, até que conseguiram juntar 18 contos de réis para a compra, em 1909, da Fazenda Santa Elisa, a "Fazendinha" com que sempre sonharam, adquirida da família Canto, no Bairro Morro Grande.

 
 Marcellino Boaretto e Paschoa Dezorzi
(foto: cortesia Antonio Carlos Angolini)



Depois de um ano, venderam o armazém para ficar definitivamente com a "Fazendinha", onde havia a casa-sede e mais outras cinco, formando uma colônia. A "Fazendinha" foi limpa e começou a produção de café, justamente na época de ouro do café no Brasil, obtendo grandes lucros com as colheitas.

Em 16 de março de 1927, Marcellino comprou da Câmara Municipal de Piracicaba 13 alqueires de terra na localidade chamada Tupi (atual Distrito de Piracicaba). Lá havia algumas famílias morando no local naquela época. A primeira casa-armazém, construída em madeira, foi feita pelo imigrante francês Augusto Marengo, e o segundo armazém foi construído pelo imigrante português José Gonçalves Barroso, o "Barrosito".

Na região, além das fazendas, existiam os bairros Tijuco Preto e Quebra Dente, o Sítio São Carlos, da família Bacchin, a Fazenda Santa Isabel, conhecida como Rocha, e o novo loteamento que a partir de 29 de julho de 1922 passou a ser conhecido como Tupi, que algum tempo depois foi elevado à categoria de Distrito com a criação de seu cartório de Registro Civil.

O aniversário do Distrito do Tupi é comemorado a partir do dia 29 de julho de 1922, data em que foi inaugurado o ramal férreo, para o qual Marcellino Boaretto doara as terras para a construção da estação.

Mesmo morando na Fazendinha, Marcellino dedicava-se ao bairro Tupi. Segundo a publicação do Diário Oficial de 04 de outubro de 1925, o Presidente do Estado nomeia Marcellino Boaretto para o cargo de Primeiro Suplente de Sub-Delegado de Polícia do Distrito de Tupi, município de Piracicaba.

Tupi foi crescendo e, por volta de 1923, a Capela de São José do bairro Quebra Dente foi demolida e transferida para o Tupi, cujo núcleo populacional era maior. A imagem de São José foi para a Fazendinha e lá ficou na casa de Marcellino, até a Capela ficar pronta.

Marcellino foi o primeiro presidente da Capela, fato que repetiu-se outras vezes com o passar dos anos. Sem interesse pessoal pela política, devido à sua grande religiosidade Marcellino colaborou tanto na construção como nas reformas que a Capela sofreu. Naquela época a Capela pertencia à Matriz do Senhor Bom Jesus, porém, os fiéis eram atendidos pelos frades da Matriz do Sagrado Coração de Jesus. Quando havia missa os frades chegavam no sábado à noite para atendimento das confissões, celebrando as missas no domingo, às 7 e às 10 horas. Com grande frequência, esses frades se hospedavam na Fazendinha, pois havia grande dificuldade de condução para retornar a Piracicaba.

Em 13 de abril de 1923, Marcellino Boaretto e José Basso inauguram o novo prédio, por eles construído, para abrigar as Escolas Reunidas de Tupi, que foram para lá transferidas da fazenda Morro Grande e de outros locais da região. Depois de algum tempo a escola passa a chamar-se Grupo Escolar de Tupi.

José Basso vende ao compadre Marcellino sua parte na sociedade. Em 1937, devido ao aumento populacional, Marcellino comprou mais 1.000 metros de terra na Rua Piracicaba e amplia a Escola, que passou, em 1940, a Grupo Escolar Pedro de Mello. Hoje, no local, herdado pelo filho Romano, fica a residência dos seus filhos e netos de Marcellino. A escola foi transferida para outro local, em terreno doado pela Câmara Municipal ao Estado, que construiu novo prédio, que funciona desde 1963, sendo hoje a Escola Estadual Pedro de Mello.

Ainda continuam residindo no Tupi os filhos Anna e Mário, com residência e propriedades herdadas de Marcellino.

Marcellino Boaretto faleceu na Fazenda Santa Elisa em 26 de novembro de 1942, aos 65 anos de idade, e está sepultado no Cemitério da Saudade, município de Piracicaba, com registro no Livro C-58, folha 84, nº 11.242.

 

O irmão Romano

Romano Túllio Boaretto, conhecido também como Romão Boaretto,  nasceu no dia 01 de maio de 1880, em San  Martino di Venezze, na província de Rovigo, na Itália. Casou-se com Luiza Guarnieri no dia 04 de novembro de 1911, tendo como testemunhas Marcellino Boaretto e Desorzi Ernesto. Dessa união nasceram os filhos José Boaretto e Armando Boaretto.

1880 nascimento de Romano Tullio Boaretto San Martino di Venezze

Registro de nascimento de Romano

 

Romano faleceu com quarenta anos de idade no dia 10 de agosto de 1920, em consequência de carcinoma hepática.

Luiza Guarniere casou-se anos depois com Pedro Storer.

Os filhos de Romano seguiram para a capital paulista, onde José Boaretto teve 5 filhos com Tereza Sartori, ainda viva e com 95 anos, e Armando Boaretto teve 2 filhos.

 


[1] Certidão de Casamento lavrada na 1ª Zona do Distrito de Piracicaba nas folhas 151 do Livro 11, sob nº 236, em 24 de novembro de 1906.

[2] Jornal do Tupi, edição de junho de 2002, pg. 06. texto de Antonio Carlos Angolini - Historiador e morador de Tupi.