Família Boaretto

A relação dos imigrantes italianos com brasileiros negros (e com pardos, mulatos, mestiços e caboclos) foi ambígua. Embora existam registros de uma convivência pautada na colaboração, amizade e intimidade entre italianos e negros, também há comprovação de que havia conflitos e violência permeando essa relação inter-racial. Com base num estudo histórico realizado em São Carlos (interior de São Paulo) constatou-se que a violência física entre italianos e negros advinha, geralmente, de conflitos simbólicos. De um lado, os negros queriam afirmar a sua igualdade perante os italianos e, por outro lado, estes tentavam afirmar a sua superioridade.

Ao contrário do que muitas vezes se propagou, os negros não abandonaram as plantações de café com a abolição da escravatura. Muitos permaneceram no meio rural, trabalhando lado a lado dos imigrantes. Em consequência, muitos imigrantes encontraram negros em condição de classe igual à sua, exercendo as mesmas funções ou em atividades com níveis parecidos de renda e respeitabilidade. Em alguns casos, pretos e mulatos tinham posição de autoridade sobre italianos, como administradores de fazenda ou diretores de colonos, além do fato de que 20% dos soldados esquartelados de São Carlos eram negros.

A maneira como os fazendeiros tratavam os imigrantes remetia à condição escravista e, mesmo nos centros urbanos, italianos recebiam tratamento parecido por parte da polícia, que os espancava e roubava. Ao mesmo tempo, a ideologia racial predominante no Brasil afirmava a superioridade racial dos europeus sobre os negros. Essa ambiguidade levava a tensões, uma vez que os italianos, ao verem sua própria condição tão próxima a dos negros, mesmo antes de aprender o discurso racial brasileiro, sentiam a importância de manter as distinções de cor em relação aos negros, mestiços e caboclos, com os quais não queriam se confundir. Os negros, por outro lado, não admitiam ser subordinados ou rebaixados devido à sua cor de pele. Era uma luta, portanto, pelo "capital simbólico", ou seja, o capital de respeito ou importância social.

Nos inquéritos policiais de São Carlos, havia duas vezes mais negros sendo agredidos por brasileiros brancos do que o inverso e quase três vezes mais negros sendo agredidos por italianos do que o oposto. Os imigrantes italianos eram verdadeiros substituidores de escravos e, ao perceberem que sua situação social estava "perigosamente" perto da dos negros, os italianos sentiam as reivindicações por respeito e igualdade no trato como ameaça à sua identidade e honra. Assim, as análises dos inquéritos policiais de São Carlos sugerem que os italianos, ao verem como os brasileiros brancos tratavam os pretos, mulatos e caboclos, aprenderam que estes podiam ser ameaçados, agredidos ou mortos, caso ousassem contradizer, desacatar ou desrespeitar os "brancos".

Esses conflitos, opondo imigrantes europeus de um lado e pretos, mulatos e caboclos do outro, fortaleceram a formação de uma "identidade branca", que contribuiu para amenizar as fronteiras que existiam entre os próprios imigrantes europeus. Os imigrantes italianos chegavam ao Brasil com resquícios do forte regionalismo então existente na Itália, onde a identidade italiana ainda era bastante débil, haja vista tratar-se a Itália de um Estado recém-unificado. As interações sociais vividas no Brasil, todavia, acabaram diluindo e enfraquecendo o regionalismo e fortalecendo a identidade italiana e branca.

Segundo Denys Cruche, "a construção das identidades se faz no interior de contextos sociais, que determinam a posição do agente e por isso mesmo orientam suas representações e escolhas". O fato de os brasileiros desconhecerem a grande variação regional que existia na Itália, tratando todos os imigrantes como meros "italianos", contribuiu para redefinir a identidade italiana dessas pessoas. Assim, ao entrar em contato com outras nacionalidades e criando fronteiras étnicas, o imigrante italiano reconstruiu a visão que tinha de si mesmo, assumindo uma identidade nacional que nem ao menos possuía antes do ato imigratório.

No sul do Brasil as diferenças "étnicas" também foram remarcadas como um elemento de diferenciação. Se durante a II Guerra Mundial ser italiano era algo negativo, após o conflito houve uma reelaboração do conceito, apontando o italiano como o "civilizador".

A cultura assume um significado classificatório, implicando a noção de superioridade e inferioridade, formando hierarquia de etnias. Os pretos eram chamados de brasileiros, trazendo uma visão pejorativa e racista em favor de uma superioridade italiana. Azevedo, em 1952, observou que, em Caxias do Sul, havia uma linha de cor bastante nítida que separava os "brancos" dos "morenos". Uma linha, embora mais tênue, também separava os descendentes de italianos dos "brasileiros" originários de outras partes do Rio Grande do Sul e descendentes de portugueses.

Para muitos descendentes de italianos, a reivindicação de uma identidade "ítalo-gaúcha" atualmente os fazem acreditar que isso lhes agrega valor e contribui para uma diferenciação social. "Ser ítalo-gaúcho é mais valorizado do que ser simplesmente, brasileiro". O historiador Stanley Fish denomina esse fenômeno de "multiculturalismo de boutique" e que, segundo Stuart Hall, "celebra a diferença sem fazer diferença". A ascendência italiana passa a ser tida como um diferencial, que permite o acesso à cidadania italiana, trabalho no exterior, bolsas de estudos etc.

Vitalina Maria Frosi, num trabalho sobre o uso de dialetos italianos no Rio Grande do Sul, afirma que "o uso da fala dialetal italiana é, muitas vezes, artificial na boca de falantes urbanos". Para ela, muitas vezes o uso da língua italiana, no sul do Brasil, não tem a função de comunicação e de transmissão de cultura, pois assume a função "instrumental para demarcar um espaço próprio, uma identidade cultural local, um perfil de determinado grupo humano ítalo-brasileiro regional".