Família Boaretto

Escola italianos em 1900, Campinas.

Católico e latino, o imigrante italiano se assimilou no Brasil mais facilmente que alemães e japoneses, por exemplo. O quase desaparecimento dos dialetos italianos no Brasil é um exemplo dessa rápida assimilação.

É evidente, porém, as diferenças entre o grupo de italianos que se concentrou em colônias (no Sul) e os trabalhadores do café (Sudeste). Nas colônias, o imigrante se manteve por cerca de três gerações praticamente isolado com outros italianos nas zonas rurais sulistas. No Sudeste do Brasil, por outro lado, o italiano mais facilmente se integrava entre a população local.

Os italianos que chegaram ao Brasil em finais do século XIX não traziam uma identidade italiana definida. A Itália, enquanto Estado nacional, apenas se unificou em 1870. Antes disso, a Península Itálica era um amontoado de pequenos Estados independentes ou dominados por potências estrangeiras. A construção de uma identidade italiana se deu bem mais tarde, num processo bastante custoso com reflexos até os dias atuais. Não foi à toa que Massimo D'Azeglio, um dos mentores da Unificação da Itália, afirmou: “Nós fizemos a Itália: agora temos que fazer os italianos”. Eram "vênetos", "calabreses", "sicilianos" ou "lombardos", antes de serem "italianos". E, mesmo dentro desses grupos regionais, havia diversas outras subdivisões.

Os imigrantes que partiam da Itália tinham como noção identitária de pertencimento o seu vilarejo de nascimento e moradia. Falavam dialetos distintos, adoravam santos diferentes, alimentavam-se e casavam-se distintamente. A noção de ser italiano apenas surgiu mais tarde, após a imigração para o Brasil, visando fazer uma diferenciação entre eles próprios, os "italianos" e os "outros", os "brasileiros" ou "negri" (o termo "negro" designava os brasileiros, nem sempre com uma referência à cor da pele). Dessa forma, o sentimento de ser italiano consolidou-se mais prematuramente nas comunidades italianas no exterior do que na própria Itália, onde apenas se consolidaria anos mais tarde.

Da colônia para fora, os imigrantes eram "italianos" mas, internamente, as divisões regionais ainda se perpetuaram. Os imigrantes procuravam se agrupar com italianos que vinham da sua mesma região de origem na Península.

Com a ascensão do fascismo na Itália, a busca por uma "identidade italiana" (italianità) tornou-se uma questão política, com a adesão de muitos italianos e descendentes ao fascismo. A Igreja Católica teve papel fundamental na formação da identidade italiana, pois o catolicismo e a italianidade estavam estreitamente ligados, pois nos espaços de ensino e lazer as escolas religiosas e as festas a santos padroeiros sempre tiveram grande destaque.

O Estado Novo (1937-1945), comandado por Getúlio Vargas, iniciou uma campanha de nacionalização que afetou a vida dos italianos e seus descendentes. Depois, durante a II Guerra Mundial, quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo (Alemanha, Itália e Japão), as medidas se tornaram mais pesadas.

Ser italiano passou a ser sinônimo de "perigo". Os dialetos italianos foram proibidos de ser falados publicamente, as associações italianas foram fechadas e o comércio e residência de italianos foram invadidos. Nas colônias italianas do sul, muitos descendentes de italianos tiveram que esconder características que remetessem às suas origens, alguns desenvolveram sentimento de vergonha, principalmente os jovens que frequentavam escolas para aprender corretamente a língua portuguesa e eliminar qualquer vestígio que denunciasse as suas origens. Ser colono passou a ser algo negativo, associado ao "atrasado", "rude", "da roça". Ser brasileiro passou a ser algo positivo, uma necessidade de sobrevivência social e econômica. Porém, na intimidade, muitos descendentes continuaram a falar seus dialetos, mantiveram suas formas tradicionais de vestimenta e de alimentação, mas sempre receosos da ação policial que os reprimia.

A vontade de fazer a italianidade ser algo positivo continuava a existir, e o "brasileiro" continuou a ser considerado o outro que contrastava, por ser considerado menos trabalhador e religioso e sem os mesmos compromissos em relação à família.

A partir da década de 1970, durante as comemorações do centenário da imigração, assistiu-se a um movimento inverso. Se antes as origens italianas eram, muitas vezes, motivo de vergonha, recriou-se a italianidade, fazendo dela um atributo positivo. Muitos descendentes de italianos, já bem posicionados socialmente, criaram um novo discurso acerca da italianidade, positivando-a. Buscaram qualidades na saga dos imigrantes, no seu pioneirismo empreendedor e civilizador, aliado a um "padrão moral italiano", tido como trabalhador, religioso, focado na família.

Desde então, proliferaram a criação de circolos italianos que passaram a agregar a comunidade de origem italiana, recriando a própria visão dos descendentes de si mesmos. Os aspectos negativos, se uma vez existiram, passaram a ser omitidos ou reinterpretados sob uma nova ótica social.

De maneira geral, os italianos não tiveram grandes problemas em se assimilar no Brasil. Com a exceção de alguns casos isolados de atritos entre italianos e brasileiros, houve uma rapidez na assimilação dos italianos em relação ao novo ambiente, aliada à facilidade com a qual os brasileiros acolheram e fizeram próprios alguns hábitos e costumes trazidos pelos imigrantes. Essa assimilação aconteceu mais rápido em São Paulo do que nos estados sulinos, devido ao isolamento característico das colônias que predominaram no sul, permitindo a manutenção de grupos homogêneos e de uma estrutura patriarcal que dava preferência aos casamentos entre italianos.

A elite brasileira, embora considerasse o imigrante europeu superior, tendia a relacionar-se entre si e admitia estrangeiro com hesitação, quando este tinha acumulado alguma fortuna ou títulos de distinção que lhe proporcionara prestígio. Samuel H. Lowrie estimou que 40% da elite de São Paulo tenha se misturado com imigrantes no decorrer de três gerações, o que mostra que a infiltração do elemento estrangeiro na elite paulista não foi nada desprezível. Nas classes baixas brasileiras, onde não havia barreiras econômicas impedindo a convivência, a infiltração do elemento estrangeiro foi, por consequência, bem mais intensa.

Contrastavam o jus sanguinis italiano e o jus soli brasileiro. Os filhos de italianos tinham, portanto, uma dupla nacionalidade, mas, vivendo e trabalhando no país em que haviam nascido, acabavam privilegiando a nacionalidade que era sentida como única e verdadeira. Esse rápido processo de assimilação, todavia, não significou a perda automática da identidade italiana, que ainda continuava a se manifestar de diversas maneiras, seja na língua, na religião ou na culinária.