Família Boaretto

Hoje em dia, quase todos os ítalo-brasileiros falam o português como língua materna.

A maioria dos imigrantes italianos que foram para o Brasil não sabia falar a língua italiana culta. O italiano standard que hoje conhecemos nada mais é que o dialeto toscano, que foi alçado à condição de língua oficial da Itália. Este dialeto foi arbitrariamente escolhido como sendo o idioma principal do Reino da Itália, devido ao prestígio cultural da Toscana e, sobretudo, de Florença (da mesma maneira que o francês vem da língua falada em Paris). A maioria dos imigrantes italianos chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX, época em que o analfabetismo era dominante na Itália. A maioria dos italianos (com a exceção óbvia dos toscanos) falava exclusivamente outras línguas e dialetos regionais. A língua italiana só se difundiu na Itália a partir do século XX, com a alfabetização em massa da população italiana, um processo relativamente recente (até a década de 1950, a maioria da população italiana ainda se comunicava em dialeto). Os imigrantes, quando tinham conhecimento da língua italiana, se limitavam a um "italiano popular", típico dos estratos baixos da sociedade italiana, no qual mesclavam italiano com seu dialeto regional.

Portanto, os imigrantes italianos levaram para o Brasil uma variedade de dialetos, além do italiano popular de nível baixo que tinham conhecimento. No novo ambiente, tiverem que absorver a língua portuguesa, pois era o instrumento de comunicação com os brasileiros, sendo importante diferenciar se essa aprendizagem ocorreu de forma controlada ou de forma passiva. No primeiro caso, a inserção na nova sociedade e o bem-estar econômico aconteceram de forma harmônica, conservando a cultura e a língua de origem. No segundo caso, a busca por uma adaptação ao novo ambiente levou à uma alienação da pessoa, que queria se inserir naquela sociedade considerada superior, acarretando numa negação do dialeto e do italiano.

Muitas vezes, no primeiro contato com a língua portuguesa, os imigrantes de primeira geração, em razão de fatores como a idade já avançada, casamentos mononacionais ou baixo grau de socialização com os nativos, se contentavam com um conhecimento apenas razoável da língua portuguesa, delegando aos filhos a função de se tornarem falantes nativos. Esses filhos, frequentemente, eram educados em dialeto ou no italiano popular, caso os pais falassem dialetos distintos. O português, nestes casos, era a terceira língua a ser aprendida. É nesse contexto que uma ou outra língua passou a ser usada, dependendo do ambiente e com quem se estava falando, formando vários graus de bilinguismo. Um italiano bilíngue usava o português para se comunicar com um brasileiro, mas usava o italiano para se comunicar com seus conterrâneos bilíngues. A língua a ser usada dependia, portanto, de quem fosse o interlocutor. Mas essa estrutura era ainda mais complexa, pois dois falantes italianos poderiam alternar entre dialeto e italiano com o português, podendo até mesmo misturar essas línguas dentro de uma mesma frase.

O italiano (neste caso, os dialetos) influenciou o português do Brasil nas regiões onde houve maior concentração de imigrantes, como foi o caso da cidade de São Paulo ou do nordeste do Rio Grande do Sul. No caso de São Paulo, a convivência entre o português e o italiano criou um "dialeto" com peculiaridades que o distingue dos outros falares brasileiros. O português falado em São Paulo é "muito mais aberto e menos nasalizado em confronto com o português do Rio de Janeiro, por exemplo".

Na cidade de São Paulo, a diversidade dos falares dos imigrantes resultou numa maneira de falar bastante peculiar, que se difere substancialmente do falar caipira, que predominava na região antes da chegada dos italianos e é ainda generalizado no interior do estado. O novo falar se forjou da mescla do calabrês, do napolitano, do vêneto, do português e ainda com o caipira. Atualmente, a influência italiana no português falado em São Paulo não é tão grande quanto no passado, embora o sotaque paulistano continue marcado pelo dialeto ítalo-brasileiro que predominava na cidade no início do século XX. É de notar que a influência italiana no falar paulistano se generalizou bastante, ao ponto de englobar os habitantes da cidade que nem ao menos possuem ascendência italiana.

Interferência do italiano também foi detectada em falantes de Chapecó, em Santa Catarina. Os encontros vocálicos nasalizados de finais de palavra são substituídos, como a palavra "mão" sendo pronunciada [mon], a lateralização de /l/ em palavras como [sal], que no português do Brasil se pronuncia [saw] e na troca da vibrante múltipla pela simples em contextos intervocálicos, como "carro" sendo pronunciado [karo]. Em muitos casos, os falantes nem ao menos sabem falar o dialeto italiano, mas a interferência do italiano no português persiste, pois as suas características fonéticas são passadas de geração em geração.

Na década de 1930, o governo brasileiro iniciou uma campanha de nacionalização que restringiu o uso de idiomas estrangeiros. Na época da II Guerra Mundial, o italiano foi proibido de ser usado publicamente. Todos deveriam falar em português, sabendo ou não esse idioma. Isso causou um grande estigma na comunidade de origem italiana, principalmente no nordeste do Rio Grande do Sul. Falar dialeto ou falar português com sotaque italiano passou a ser motivo de vergonha e de chacota. Essas pessoas passaram a ser estigmatizadas por "falarem errado", por serem "não urbanas", "não cultas", "não instruídas", "não brasileiras". Isso contribuiu bastante para que o idioma italiano fosse pouco desenvolvido entre os descendentes de italianos. Mais recentemente, esse estigma vem sendo superado.

Embora os imigrantes tenham vindo de diferentes partes da Itália, o dialeto italiano que mais se difundiu no Brasil foi o vêneto, pois foi do Vêneto que veio a maior corrente migratória italiana (principalmente no Sul do Brasil, onde eles foram a maioria). O dialeto talian (com raiz no vêneto), é bastante difundido nas zonas vinícolas do Rio Grande do Sul. Nas zonas rurais marcadas pelo bilinguismo, mesmo entre a população monolíngue em português, o sotaque italiano é bastante característico.