Família Boaretto

Passaporte raro de uma família de sardos que imigrou para o Brasil, em 1896, no Vapor América, que atracaram no Porto do Rio de Janeiro, com destino ao Estado de Minas Gerais - Família Scarpa: Giovanni Battista Scarpa, Maria Luigia Canu e suas filhas, Antonietta Scarpa e Maria Scarpa, provenientes da cidade de Tissi, Província de Sassari, Sardenha.

Apenas seis estados brasileiros concentraram a quase totalidade da imigração italiana no Brasil. Eles foram, em ordem de importância, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná. O estado de São Paulo foi, de longe, aquele que mais recebeu imigrantes no Brasil. Dos cerca de 1,5 milhão de italianos que imigraram para o Brasil entre os anos de 1875 e 1935, 1,2 milhão deles foram para São Paulo, 100 mil para o Rio Grande do Sul, 60 mil para Minas Gerais, 25 mil para o Espírito Santo, 25 mil para Santa Catarina e 20 mil para o Paraná.

São Paulo e Minas Gerais tiveram uma política imigratória muito semelhante: atrair italianos para substituírem os escravos como mão de obra nas fazendas de café. Os outros estados, por outro lado, atraíam imigrantes visando convertê-los em pequenos proprietários agrícolas.

O estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, a sua capital, também foi um destino relevante de imigrantes italianos. Mas estes vinham, sobretudo após o ano de 1900, não diretamente da Itália, mas de outros estados brasileiros, atraídos pelas oportunidades de empregos urbanos.

Para as outras regiões do Brasil, a imigração italiana foi bastante exígua. Foram feitas tentativas de colonização italiana tanto no Norte como no Nordeste do Brasil, mas todas fracassaram e não tiveram continuidade.

 

Rio Grande do Sul

Parte da réplica da antiga Caxias do Sul, no parque de exposições da Festa da Uva, em Caxias do Sul, Brasil.

O estado do Rio Grande do Sul recebeu a primeira leva de imigrantes italianos a chegar ao Brasil. Os primeiros imigrantes desembarcaram em 1875, para substituírem os colonos alemães que, a cada ano, chegavam em menor quantidade. Os colonos italianos foram atraídos para a região para trabalharem como pequenos agricultores e lhes foram reservadas terras selvagens na encosta da Serra Gaúcha.

Na região foram criadas as primeiras três colônias italianas: Conde D’Eu, Dona Isabel e Campo dos Bugres, atualmente as cidades de Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, respectivamente. Com o tempo, os italianos passaram a subir as serras e a colonizá-las. Com o esgotamento de terras na região, esses colonos passaram a migrar para várias regiões do Rio Grande. A base da economia na região italiana do Rio Grande foi, e continua a ser, a vinicultura.

No centro do estado foi criada a Quarta Colônia de Imigração Italiana, o primeiro reduto de italianos fora da Serra Gaúcha e que originou municípios como Silveira Martins, Ivorá, Nova Palma, Faxinal do Soturno, Dona Francisca e São João do Polêsine. Nesse último, está a localidade de Vale Vêneto, nome dado para fazer homenagem a tal região italiana.

Outras colônias italianas foram criadas e deram origens a cidades como Caxias do Sul, Farroupilha, Bento Gonçalves, Garibaldi, Flores da Cunha, Antônio Prado, Veranópolis, Nova Prata, Encantado, Nova Bréscia, Coqueiro Baixo, Guaporé, Lagoa Vermelha, Soledade, Cruz Alta, Jaguari, Santiago, São Sepé, Caçapava do Sul e Cachoeira do Sul. Essas são as principais colônias italianas do estado. Estima-se que imigraram para o Rio Grande 100 mil italianos, entre 1875 e 1910. Em 1900, já viviam no estado 300 mil italianos e descendentes.

Atualmente, vivem no Rio Grande do Sul três milhões de italianos e descendentes, representando cerca de 30% da população do estado.

A língua italiana também é de ensino obrigatório nas escolas de Antônio Prado.

 

Santa Catarina

Casa de pedra em Nova Veneza, marco da colonização italiana.

Cerca de 95% dos italianos que chegaram ao estado de Santa Catarina eram do norte da Itália, dos atuais estados do Vêneto, Lombardia, Friul-Veneza Júlia e Trentino-Alto Ádige. Porém, os primeiros imigrantes italianos que chegaram ao estado, em 1836, eram oriundos da Sardenha, fundando a colônia de Nova Itália (atual São João Batista). Esses imigrantes pioneiros chegaram em número reduzido e pouco influenciaram na demografia do estado. Foi mais tarde, a partir de 1875, que passou a ser assentado no estado número maior de imigrantes italianos. Foram criadas, assim, as primeiras colônias italianas do estado: Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas estas no entorno da colônia alemã de Blumenau, servindo assim, os italianos, como a ponta de lança deste núcleo germânico. Neste mesmo ano, imigrantes do Tirol Italiano fundaram Nova Trento, e em 1876 foi fundado Porto Franco (hoje Botuverá). Os italianos instalados nestas primeiras colônias provinham majoritariamente da Lombardia e do Tirol Italiano, o qual pertencia na época à Áustria.

Diversas outras colônias foram criadas nos anos seguintes, sendo o sul de Santa Catarina o principal foco de colonização italiana do estado. Nesta região foram fundadas Azambuja em 1877, Urussanga em 1878, Criciúma em 1880, a colônia mista de Grão-Pará em 1882, o núcleo Presidente Rocha (hoje Treze de Maio) em 1887, os núcleos de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso) em 1891, e Acioli de Vasconcelos (hoje Cocal do Sul) em 1892. No sul do estado os imigrantes provinham principalmente do Vêneto, e, em menor número, da Lombardia e de Friul-Veneza Júlia. Os imigrantes se dedicaram principalmente ao desenvolvimento da Agricultura e à mineração do carvão, sendo eles imprescindíveis na formação desta região. Os eventos que mais caracterizam essa colonização no sul do estado são as festas típicas, como a festa do vinho e o Ritorno alle origine, ambos no município de Urussanga.

A chegada de Italianos ao estado terminou em 1895, quando um número já reduzido de colonos chegou para colonizar a comunidade de Rio Jordão, no sul do estado. Principalmente pela guerra civil que estourou no país com a Revolução Federalista e pelo contrato da república que deixava a imigração subsidiada a cargo dos estados, os italianos pararam de adentrar aos portos catarinenses.

A partir de 1910, milhares de gaúchos migraram para Santa Catarina, entre eles, milhares de descendentes de italianos. Esses colonos ítalo-brasileiros colonizaram grande parte do Oeste catarinense. Atualmente, vivem em Santa Catarina três milhões de italianos e descendentes, representando cerca da metade da população, sendo que muito da cultura ainda é preservada nos antigos focos de colonização, principalmente na culinária, e na linguagem.

 

Paraná

Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, em Colombo, Paraná. Obra iniciada em 1898, em estilo romano, sendo uma cópia fiel das igrejas italianas.

Os primeiros italianos a imigrar para o Paraná foram os vênetos, a partir de 1875, alocados em colônias próximas à Paranaguá, nas regiões de Morretes e Antonina. A Colônia Alexandra e posteriormente a Colônia Nova Itália tiveram vários problemas, sendo que seus moradores foram posteriormente remanejados para regiões mais próximas da capital.

Em 1900, viviam no estado do Paraná mais de trinta mil italianos, espalhados por catorze colônias etnicamente italianas e outras vinte mistas. No início, a maior parte dos imigrantes trabalhou como colonos autônomos, porém, com o desenvolvimento do café, passaram a compor a mão-de-obra da região. As maiores colônias prosperaram na Região Metropolitana de Curitiba, sendo o município de Colombo (localizado na Grande Curitiba) a maior colônia italiana do Paraná. A Colônia Alfredo Chaves (que posteriormente se tornaria a cidade de Colombo) foi uma das quatro onde se concentraram os primeiros italianos que chegaram ao estado. As outras são a Senador Dantas (que deu origem ao bairro curitibano Água Verde), a Santa Felicidade (atual polo gastronômico da capital paranaense) e a Colônia de Santa Maria do Tirol, localizada no município de Piraquara (na Grande Curitiba). A influência italiana se faz presente em todas as regiões do estado (como no norte do estado, com o vocábulo terra roxa, oriundo da confusão da língua italiana para a cor vermelha - "terra rossa").

Em Curitiba chegaram a partir de 1872, estabelecendo-se como agricultores em vários núcleos coloniais da região, que posteriormente deram origem aos atuais bairros de Pilarzinho, Água Verde, Umbará e Santa Felicidade (tradicional bairro de cultura e gastronomia italiana da capital paranaense), por exemplo. Com o passar do tempo adotaram outras atividades, incluindo industriais e comerciais.

Fato inédito no Brasil, a Colônia Cecília foi a primeira experiência anarquista no país; fundada em 1890 no atual município de Palmeira por um grupo de libertários mobilizados pelo italiano Giovanni Rossi, os colonos plantaram mais de oitenta alqueires de terra - em área que lhes fora cedida pelo Imperador Pedro II, pouco antes da proclamação da República - e construíram mais de dez quilômetros de estrada, numa época na qual inexistiam máquinas, tratores ou guindastes de transporte de terras. Nos quatro anos de existência da colônia, sua população chegou a atingir cerca de 250 pessoas. O experimento da Colônia Cecília terminou por vários motivos, tanto econômicos como sócio-culturais.

Outras cidades receberam imigrantes italianos: além de municípios da Microrregião de Paranaguá (na Serra do Mar e litoral) e a capital, cidades da Grande Curitiba (como São José dos Pinhais, Araucária, Campo Largo, Piraquara, Cerro Azul e Colombo), assim como do interior receberam significativo número de imigrantes. Atualmente representam cerca de 40% da população paranaense, sendo o estado sulista com maior população descendente de italianos.

 

São Paulo

Imigrantes posando para fotografia no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes, ca. 1890.

O estado de São Paulo recebeu 70% dos imigrantes italianos que foram para o Brasil, pelo fato de as fazendas de café terem se concentrado nessa região e de esse estado ter investido grande quantia de dinheiro subsidiando a passagem dos imigrantes. Até o ano de 1920, deram entrada nesse estado 1.078.437 italianos.

São Paulo recebeu imigrantes de diversas regiões da Itália. Nos registros paroquiais de São Carlos, cidade produtora de café no interior de São Paulo, para o período compreendido entre 1880 e 1914, foi-se registrado que, dentre os italianos que ali se casaram, 29% dos homens e 31% das mulheres eram oriundos do Norte da Itália, sendo o Vêneto a região mais bem representada, com 20% dos homens e 22% das mulheres, seguido da Lombardia com 5% dos homens e 6% das mulheres. Os italianos do Sul também eram bastante numerosos, correspondendo a 20% dos homens e 15% das mulheres de nacionalidade italiana. Calábria, com 7% dos homens e 5% das mulheres e Campânia, com 6% dos homens e 5% das mulheres eram as regiões sulistas que mais mandaram imigrantes para São Carlos.

Em São Paulo, assim como no resto do Brasil, havia a tendência dos imigrantes do Norte da Itália rumarem para a zona rural, enquanto os do Sul preferiam se dedicar às ocupações urbanas. Isso explica o fato de, na cidade de São Paulo, os meridionais terem dominado bairros inteiros, como foi o caso do Bixiga, do Brás e da Mooca, habitados especialmente por imigrantes oriundos da Calábria e de Campânia.

Atualmente, vivem em São Paulo treze milhões de italianos e descendentes, representando cerca de 32,5% da população do estado.

 

Na capital

 

Ouve-se falar o italiano mais em São Paulo do que em Turim, em Milão e em Nápoles, porque entre nós se falam os dialetos e em São Paulo todos os dialetos se fundem sob o influxo dos vênetos e toscanos, que são em maioria (Gina Lombroso, viajante italiana em São Paulo no início do século XX).

(...) a impressão de espanto de um mineiro ao conhecer São Paulo em 1902:' Os meus ouvidos e os meus olhos guardaram cenas inesquecíveis. Não sei se a Itália o seria menos em São Paulo. No bonde, no teatro, na rua, na igreja, fala-se mais o idioma de Dante que o de Camões. Os maiores e mais numerosos comerciantes e industriais eram italianos'. Sousa Pinto, um jornalista português que esteve na Cidade na mesma época, não conseguiu se fazer entender por vários chocheiros de tílburi, todos falando dialetos peninsulares e gesticulando à napolitana. Escritas em italiano eram também as tabuletas de vários edifícios. 'Encontramo-nos a cogitar se por um estranho fenômeno de letargia em vez de descer em São Paulo teríamos ido parar à Cidade de Vesúvio' (...)

(Ernani da Silva Bruno. História e tradições da cidade de São Paulo)

    

Cidade de São Paulo

Ano

Italianos

Porcentagem da população da cidade

1886

5.717

13%

1893

45.457

35%

1900

75.000

31%

1910

130.000

33%

1916

187.540

37%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minas Gerais

Minas Gerais recebeu o terceiro maior fluxo de imigrantes italianos que foi para o Brasil, atrás somente dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Cerca de 60 mil italianos se dirigiram para esse estado durante o período da imigração. Bem semelhante ao estado de São Paulo, os italianos também foram atraídos para Minas Gerais com o objetivo de aumentar os braços para as lavouras de café. Mas os resultados da política de imigração em Minas foram bem menos significativos, uma vez que o estado compelia os imigrantes e os próprios fazendeiros a pagar parte da passagem de navio, enquanto o estado de São Paulo cobria todos os gastos. Por fim, em 1898 uma grave crise financeira atingiu o estado, que suspendeu a imigração subsidiada.

Minas passou a incentivar a vinda de italianos, sobretudo, a partir do ano de 1887. Todavia, foi só a partir de 1894 que o estado fez contratos que aumentaram o fluxo de imigrantes. Em 1895, entraram no estado 6.422 italianos, número que saltou para 18.999 em 1896, decrescendo para 17.303 em 1897. A partir de então, o número de imigrantes chegando ao estado caiu drasticamente (2.111 em 1898 e míseros 41 imigrantes em 1901).

Os italianos que foram para Minas provinham de várias regiões da Península. Os registros de imigrantes que foram para o município de Leopoldina mostram que eles provinham de quatorze regiões diferentes do norte, centro e sul da Itália. Minas Gerais foi o único estado brasileiro que recebeu número significativo de imigrantes da ilha da Sardenha, região italiana que pouco contribuiu com a imigração para o Brasil. Isso foi resultado de uma persistente propaganda para atrair imigrantes da Sardenha, embora a maioria tenha regressado para a Itália no prazo de dois anos. Minas Gerais também foi uma meta imigratória de muitos italianos da região da Emilia-Romagna, também fruto de uma propaganda agressiva que se deu na região, visando atrair mão de obra para as lavouras de café mineiras, sobretudo após a abolição da escravatura, em 1888.

Entrada de italianos em Minas Gerais

1894

1895

1896

1897

1898

1899

1900

1901

4.410

6.422

18.999

17.303

2.111

650

21

41

 

Rio de Janeiro

Ao contrário do que ocorreu no restante do Brasil, no Rio de Janeiro os imigrantes italianos eram majoritariamente urbanos, trabalhando principalmente na indústria e no comércio. Em 1900 viviam no estado 35 mil italianos, a maioria na própria cidade do Rio de Janeiro, e o restante nas colheitas de café.

Atualmente, vivem no Rio de Janeiro 600 mil italianos e descendentes, representando cerca de 4% da população do estado.

Os italianos que foram para o Rio de Janeiro se diferenciavam, pois eram, sobretudo, meridionais, oriundos especialmente das Províncias de Cosenza, Potenza e Salerno e, em número menor, também de Nápoles, Caserta e Reggio Calábria. Isto porque os italianos do Sul preferiam se dedicar às ocupações urbanas, sendo que a então capital do Brasil oferecia uma série de profissões alternativas.

 

Espírito Santo

O Espírito Santo abriga uma das maiores colônias italianas do Brasil. Os imigrantes foram atraídos para o Estado a fim de ocupar inicialmente a região das serras. Os imigrantes foram obrigados a enfrentar a mata virgem e foram abandonados pelo governo à própria sorte. A situação de miséria vivida por muitos colonos fez com que, em 1895, o governo italiano proibisse a emigração de seus cidadãos para o Espírito Santo.

Regiões de origem dos italianos entrados

no Espírito Santo (1812-1900)

Região

Nº de imigrantes

Vêneto

8.671

Lombardia

4.392

Trentino-Alto Adige

3.043

Emilia-Romanha

2.282

Piemonte

1.195

Friuli-Venezia Giulia

854

De outras regiões

1.686

Não consta

10.777

Total

32.900

No Espírito Santo foi-se usado o mesmo modelo de colonização do sul, mas sem os mesmos resultados. Até 1891, não emigravam mais de 200 italianos anualmente para esse estado. O fluxo cresceu nos anos seguintes, sendo registrada a entrada de 476 italianos em 1892, número que saltou para 2.406 em 1893. Esses italianos vinham se empregar em obras públicas e, quando estas foram terminando, alguns ficaram na capital, enquanto que a maioria se empregou nas fazendas. A companhia de imigração La Veloce instituiu uma linha direta Gênova-Vitória, com navio partindo mensalmente. Isso garantiu um fluxo apreciável de imigrantes, tanto que em 1894 chegaram 3.215 italianos e, em 1895, mais 4.575 pessoas.

Com esses imigrantes foi-se tentada a colonização da região do Rio Doce, mas com resultados desastrosos. Deu-se um surto de cólera no sul do estado, o que fez o governo italiano suspender temporariamente as operações de embarque em direção a Vitória, por meio do decreto de 20 de julho de 1895. Em decorrência das dificuldades financeiras do estado, a imigração no Espírito Santo praticamente acabou a partir de 1896. O número de italianos no estado, estimados em 20 mil pessoas em 1895, ficou estagnado até a primeira década do século XX, vindo a cair progressivamente a partir de então.

Entre 1812 e 1900, entraram no estado do Espírito Santo 43.929 imigrantes, dos quais 32.900 eram italianos, ou seja, 75% do total. Após o ano de 1900, pouquíssimos italianos ainda entraram no estado, somente 121 indivíduos. Cerca de 93% dos imigrantes italianos que foram para o estado provinham de regiões do Norte da Itália. Cerca de 40% eram provenientes da região do Vêneto, 20% da Lombardia, 14% do Trentino-Alto Adige, 10% da Emília-Romanha, 5% do Piemonte, 4% do Friuli-Venezia Giulia, 2% das Marcas e 2% de Abruzzo, 1% da Toscana e 1% de Campânia e outro porcento de outras regiões.

Do Vêneto, as províncias que mais mandaram imigrantes para o estado foram Treviso (31%) e Verona (28%). Já os imigrantes lombardos vieram de diversas províncias, mas sobretudo de Mântua (24%) e Cremona e Bérgamo com 20% cada. Por outro lado, os colonos oriundos do Trentino-Alto Adige vieram quase que exclusivamente da província de Trento (96,2%), em especial das comunas de Levico Terme e frações (17,40%) e de Novaledo (11,78%). Os imigrantes vindos da Emília-Romanha também provinham de diversas províncias, com destaque para Bolonha (24,10%), Módena (19,36%) e Parma (17,58%).

De maneira geral, as cinco províncias italianas que mais forneceram imigrantes para o Espírito Santo foram: Trento (2.801 imigrantes), Treviso (2.615), Verona (2.325), Vicenza (1.060) e Mântua (1.033). 94,81% dos imigrantes embarcaram no porto de Gênova, no Norte da Itália; 4,51% no porto de Le Havre, na França, enquanto que o resto embarcou no porto de Buenos Aires (Argentina), de Nápoles (Sul da Itália) e de Marselha (França). 68% dos imigrantes vieram diretamente da Europa, 31% fizeram escala no porto do Rio de Janeiro e 1% veio de Buenos Aires.

Algumas fontes afirmam que 60% da população do Espírito Santo é formada por descendentes de italianos. A historiadora Maria Cristina Dadalto critica essa informação que, segundo ela, é um "mito". Não existe nenhuma pesquisa que comprove esse dado, mas "uma profícua produção literária produzida sobre a imigração italiana no estado ajudou a construir e a fortalecer este mito".

 

Centro-Oeste do Brasil

Praticamente não houve imigração italiana para a região Centro-Oeste do Brasil. A maior parte das pessoas de origem italiana da região são migrantes oriundos do Sul do Brasil. A partir da década de 1970, a falta de oportunidades no interior do Sul fez com que milhares de sulistas migrassem para o Centro-Oeste, em especial para o Mato Grosso do Sul. Entre esses migrantes, figuravam milhares de ítalo-brasileiros.

Atualmente, vivem na região Centro-Oeste 400 mil italianos e descendentes, representando cerca de 4% da população da região.

Norte e Nordeste do Brasil

O Norte e o Nordeste do Brasil também tentaram atrair imigrantes italianos, mas sem grande sucesso. Entre 1898 e 1902, foi publicada em Gênova uma revista quinzenal, a L'Amazzonia, que tecia elogios sobre os estados do Pará e do Amazonas, com o intuito de persuadir italianos para lá imigrarem. Mas contra o Norte e Nordeste pesavam a pobreza local e a dificuldade de adaptação dos imigrantes ao clima da região. Mesmo assim, entre 1891 e 1899, foram feitas quatro tentativas de colonização envolvendo camponeses italianos.

A primeira, na Bahia, fracassou imediatamente e a colônia, de imigrantes provenientes da Emília-Romagna e das Marcas, logo se dissolveu. A outra tentativa, no estado de Pernambuco, também não deu frutos, pois das 40 famílias italianas trazidas para a região de Suassuma, 38 solicitaram e foram transferidas para São Paulo às custas do Governo Federal, alguns meses após a chegada. As duas famílias que restaram voltaram para a Itália, em 1898.

O Piauí também tentou implantar um núcleo italiano, oferecendo ao governo da Itália a possibilidade de fazer investimentos econômicos no estado. Assim, em 1895, chegaram 40 famílias italianas, mas, novamente, a tentativa não deu certo, pois 28 famílias se negaram a se instalar nos lotes e as outras 12 foram repatriadas em 1898. Nessa mesma época, na Paraíba, houve pequenos núcleos italianos esparsos que desempenhavam atividades artesanais e comerciais em diversas cidades – além de João Pessoa e Campina Grande –, entre as quais Areia, Mamanguape, Pilar, Bananeiras e Solânea. Boa parte desse núcleo preferiu se fixar de vez no estado, onde tiveram uma influência socioeconômica bastante relevante.

O estado do Pará foi aquele que mais insistentemente tentou implantar núcleos italianos no seu território. A primeira tentativa data de 1899 e o estado oferecia aos imigrantes terra com área de 25 hectares, ferramentas, salários durante três dias da semana para desmatar a área, além de alimentação gratuita nos primeiros seis meses. Porém, após alguns meses, das doze famílias assentadas, nove desistiram. Outras duas tentativas foram feitas no mesmo ano de 1899, sem nenhum sucesso. Não era apenas o clima quente da região que acarretava no fracasso das colônias, mas o próprio despreparo dos italianos ao terem que lidar com cultivos que desconheciam (algodão, fumo, açúcar, cacau), produtos que só davam lucro quando produzidos em grande escala, com base num comércio que já deveria estar anteriormente estabelecido. Por essas razões, a imigração italiana para o Norte e Nordeste não foi agrícola, mas temporária, espontânea e essencialmente urbana.

Durante o auge da exploração da borracha no final do século XIX, houve um certo fluxo de imigração italiana para a região amazônica. A movimentação econômica atraiu um subproletariado italiano oriundo sobretudo de outros estados brasileiros, que se dedicava principalmente ao comércio ambulante ao longo do rio Amazonas ou se ocupava nos misteres urbanos (engraxate, sapateiro, carregador etc).

Em Pernambuco havia uma pequena comunidade italiana ao longo do litoral ou na capital, dedicando-se a atividades urbanas. Eram quase todos meridionais, das províncias de Cosenza, Potenza e Salerno. A Bahia concentrava a maior comunidade italiana da região, principalmente do Sul da Itália. Em 1884 não viviam mais que 200 ou 300 italianos na Bahia. Em 1908, viviam em Salvador 500 italianos, quase todos de Laino Borgo, cidade da região da Calábria. No final do século XIX, em toda a Bahia viviam entre 2.500 e 3.000 italianos.

A imigração italiana do Nordeste teve um padrão, que pode compreender quatro fases: a pré-colonial, a colonial, a imperial.

Na fase pré-colonial, o território nordestino era para os europeus apenas uma massa de terra dentro do Brasil, eles toleraram os povos indígenas da região e o que lhe eram de direito, fazendo apenas o avistamento da costa, para num futuro próximo enganá-los através do escambo e logo depois tentar escravizá-los. Nessa fase, a entrada de italianos no Nordeste já era considerada como importante devido à sua presença em várias expedições exploradoras, no que lhe renderam experiências no Mediterrâneo, e acabando por ficar na Península Ibérica à procura da oportunidade de participar de outras expedições marítimas, a fim de achar riquezas e de aumentar os seus negócios, fazendo eles partirem para o Nordeste do Brasil. Entre os navegadores, o mais famoso a pisar em terras nordestinas foi o florentino Américo Vespúcio, que por suas cartas, acabou por dar seu nome para ao continente "descoberto" por Cristóvão Colombo.

Na fase colonial, entre 1535 a 1822, a atuação da imigração foi diferente, tendo em vista que os territórios já não eram os mesmos, pois os portugueses para realizar totalmente a conquista do país, se fixaram no território, colocaram a baixo as nações indígenas e reorganizaram o lugar em função de uma economia de exportação de riquezas, nessa fase os indígenas já lutavam contra os franceses, ingleses e holandeses, que também queriam as terras. Assim os reis de Portugal e da Espanha (durante o domínio espanhol de Nápoles) criaram uma guerra contra os holandeses entre 1624 a 1654 (na época da Nova Holanda), utilizando, forças militares italianas vinda de Nápoles. Ainda nessa fase foram numerosos os sacerdotes italianos enviados ao país, para trabalharem no processo de evangelização dos povos indígenas. Dois jesuítas italianos, Andreoni e Benci, se destacaram por haver escrito livros sobre o Brasil, no século XVIII. Outros religiosos vindos para o Nordeste Brasileiro são os capuchinhos, que foram desbravadores dos sertões. Além dos religiosos e das forças militares, muitos costureiros, alfaiates, sapateiros, funileiros, caldeireiros, mecânicos etc., se fixaram tanto nas capitais como no interior do Nordeste, a fim de trabalhar.

Na fase imperial, as coisas também foram diferentes, houve uma preocupação com a ocupação de posições consideradas importantes para o governo brasileiro e com o desejo de "embranquecer" a população. Por isto, o governo passou a desenvolver uma política de colonização, com mais intensidade no Sul do país, não só com os italianos, como com outras nacionalidades europeias. Eles se instalaram no país e passaram a se mobilizar por outras províncias do Império.

Na fase do Brasil republicano, o Nordeste continuou a receber italianos, que vieram por causa do grande crescimento e da modernização da agroindústria canavieira, do desenvolvimento da indústria têxtil, do crescimento da cultura do cacau e do lançamento, no mercado externo, de produtos extrativos.

Após a Segunda Guerra Mundial, houve novas experiências, como a de implantação de uma colônia de agricultores em Jaguaquara e Itiruçu, na Bahia, o que provocou modificações nos usos e costumes dessas cidades.

Em 1837 chega à Bahia um grupo de 62 exilados políticos oriundos da península italiana, que foram presos devido às agitações políticas que ocorriam no período que antecedeu à unificação da Itália. Estes exilados sensibilizaram-se e aderiram ao movimento revolucionário que ocorria em Salvador, a Sabinada. Alguns foram presos, outros retornaram para a Itália e houve aqueles que mudaram para o Rio de Janeiro. Este envolvimento político dos imigrantes fez com que uma nova leva de exilados, oriundos da região de Nápoles, fosse cancelada. Em 1950, alguns rumaram para Itiruçu, fundando a colônia Bateia.