Família Boaretto

Saudades de Nápoles (1895). Pintura de Bertha Worms. A obra retrata um menino italiano engraxate, figura bastante comum nas ruas de São Paulo na época.

Após 1895, a imigração setentrional, sobretudo a vêneta, caiu e foi superada pela meridional. O Sul da Itália tinha características diferentes, uma vez que apresentava resíduos de feudalismo, uma agricultura pobre, com técnicas rudimentares, sem nenhuma mecanização. As terras, em geral, eram monopolizadas por grandes proprietários rurais, divididas em pequenos pedaços, dificultando o sustento e incentivando a emigração. No século XIX, a derrubada das áreas florestais no Sul da Itália provocou uma brusca mudança climática. Com a erosão do solo, eram frequentes as inundações e os deslizamentos. O período de seca durava aproximadamente seis meses, seguido de outro semestre com chuvas constantes. Em decorrência da devastação ecológica, houve a propagação da malária nas terras baixas, empurrando a população para as colinas altas, longe das planícies mais férteis. Isso obrigava o agricultor a ter que se deslocar por longas distâncias diariamente, inibindo o sucesso das pequenas propriedades.

As faltas de perspectivas econômicas empurravam muitas pessoas para o mundo do crime. No período entre 1890 e 1897, época em que o nível salarial era baixíssimo na Sicília, o banditismo tornou-se um meio de vida para muitas pessoas. Muitos camponeses tinham que ir para o trabalho carregando armas de fogo para se protegerem de eventuais ataques. Na Basilicata e na Calábria os bandidos eram, muitas vezes, protegidos pela polícia e pelos senhores de terra, o que contribuiu para a perpetuação do crime na região. Entre 1880 e 1886, a média anual de homicídios na Calábria era de 33,6 homicídios por 100 mil habitantes. O banditismo diminuiu na região graças à grande imigração de jovens do sexo masculino, os mais propensos a cair no mundo do crime, para os países das Américas (o que também propiciou a migração do banditismo italiano para as Américas, sobretudo para Nova Iorque e Chicago e outras cidades menores americanas, onde encontraram um ambiente propício à propagação das máfias).

No Brasil, a atuação de criminosos italianos também existiu, havendo uma predominância de meridionais envolvidos. Como exemplo, pode ser citada a quadrilha de Francisco Mangano, que aterrorizou o município de São Carlos, no interior de São Paulo, entre 1895 e 1897. A quadrilha, formada por imigrantes calabreses, promovia assaltos a pessoas, bancos, arrombamentos de casas e lojas, incêndios, tentativas de extorsão, roubos a trens, entre outros. Porém, o envolvimento de italianos no mundo do crime no Brasil foi excepcional, pois não havia um ambiente favorável à sua atuação, ao contrário do que ocorreu em algumas cidades dos Estados Unidos, onde eles eram inclusive mancomunados com a polícia e as elites locais.

A emigração meridional se concentrou nos países das Américas, sobretudo nos Estados Unidos, seguidos da Argentina e do Brasil. Em muitos casos, era mais barato imigrar para o Continente Americano do que para outros países da Europa. Os italianos do Sul se concentraram no estado de São Paulo. Predominava a emigração de homens que partiam sozinhos, com a intenção de trabalhar temporariamente no Brasil e retornar para a Itália. Os calabreses que emigravam para o Brasil provinham sobretudo da província de Catanzaro. Cerca de 70% eram homens, 80% eram adultos e somente 20% chegavam acompanhados da família. A maioria exercia ocupações rurais na Calábria: pequenos proprietários, trabalhadores rurais contratados ou diaristas.

Para os italianos do Sul, as zonas rurais remetiam à miséria e ao desemprego que viviam na Itália. O sonho de se tornarem proprietários rurais, tão presente entre os imigrantes vênetos que foram para o Brasil, não era compartilhado pelos meridionais. Por isso, ao chegarem ao Brasil, evitavam ao máximo ter que se empregar como trabalhadores rurais, preferindo rumar para as cidades ou se empregar como camaradas nas fazendas de café, onde exerciam serviços como de carreteiro e pedreiro.

Nas ruas de São Paulo e de outros centros urbanos, os meridionais se destacavam como comerciantes ambulantes, engraxates, carregadores e cocheiros. Em São Paulo, um observador relatou a presença de "numerosos moleques italianos, rotos e descalços, que vendem os jornais da cidade e do Rio de Janeiro, importunando os transeuntes com suas ofertas e seus gritos de malandrinhos da rua".