Família Boaretto

 Plantação da uva em Caxias do Sul

No Brasil, havia grande disponibilidade de terras e um grande vazio demográfico, que causava preocupação no governo. Atrair imigrantes europeus para ocupar essas regiões foi uma política que existia desde o início do século XIX. Entre 1818 e 1824, foram feitas duas tentativas de colonização por imigrantes, sendo elas Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, com suíços, e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, com alemães. Em 1867, as terras públicas disponíveis à colonização mediam 503.965 hectares e em 1861 existiam 33 colônias habitadas por 33.970 estrangeiros. Quatorze anos depois, o número de colônias crescera para 89, sendo 66 delas no Sul (de São Paulo ao Rio Grande do Sul).

Esse modelo de colonização era bastante limitado, devido à falta de disponibilidades financeiras para levar a cabo um projeto desse porte e à desorganização das iniciativas que envolviam particulares, o Estado e as províncias. Em decorrência, das 96 colônias criadas entre 1846 e 1860, 66 desapareceram sem deixar sinal.

A primeira lei orgânica para tratar da colonização data de 1867, integrada por sucessivos decretos nos anos posteriores, até o abandono da política de colonização, no ano de 1914. Os imigrantes recebiam diversos auxílios governamentais, como viagem paga entre o porto do Rio de Janeiro até o núcleo colonial, recebimento de um lote de terra para a família imigrante, que poderia ser pago em várias prestações, uma casa provisória e auxílio para construir uma nova moradia.   Nessa época, foram poucas as colônias que conseguiram prosperar, com exceção das colônias alemãs, mais bem organizadas devido às iniciativas de particulares.

O governo brasileiro já assistia, com apreensão, à progressiva germanização das províncias sulinas, haja vista a sua organização e a sua impermeabilidade em relação à população brasileira. É nesse momento que, com a crise afetando as zonas rurais na Itália, se incentivou a vinda de colonos italianos para a região. O Sul do Brasil, nesse período, exercia um poder de atração de italianos, pois contava com disponibilidade de terras, atraindo os que aspiravam se tornar proprietários rurais. Ademais, as notícias de que o clima no Brasil meridional era suficientemente semelhante ao italiano para assegurar o cultivo de produtos aos quais estavam acostumados e tinham conhecimento contribuiu para a corrente migratória italiana ter se concentrado quase que exclusivamente nos estados sulinos, nesse primeiro período de imigração.

É importante salientar que a historiografia sempre deu destaque à questão do clima "temperado" do sul como um fator de atração dos imigrantes para a região. Na realidade, a questão climática teve um peso reduzido na escolha em imigrar para aquela região. O que, de fato, contribuiu para esse modelo de colonização europeia ter predominado no sul é que, desde o início, essa região foi a que mais sistematicamente investiu nesse modelo de povoamento com pequenos proprietários estrangeiros. Esse modelo de colonização também foi tentado em outras partes do Brasil, mas os parcos recursos gastos e a falta de organização geraram colônias que prontamente fracassaram.

Os imigrantes que se dirigiram para o Sul do Brasil eram quase todos do Norte da Itália. Isto porque a imigração de italianos do Sul da Itália para o Brasil só se intensificou a partir de 1895, quando a imigração italiana para o Sul do Brasil já estava em plena decadência, pois o fluxo migratório estava se dirigindo maciçamente para o estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, vênetos e lombardos corresponderam a 87% dos imigrantes. Em Santa Catarina, trentinos, vênetos e lombardos formavam a maioria, além de um número reduzido de emilianos. No Paraná, no início da imigração, os vênetos corresponderam a 90% dos imigrantes, caindo para 70% mais tarde. Em 1908, dos 52 núcleos coloniais habitados por italianos no Paraná, 46 eram habitados por vênetos, 3 por meridionais, 1 por friulanos e 1 por imigrantes de várias regiões.

Os italianos tiveram que ocupar lotes localizados no planalto gaúcho, região coberta pela mata, sem vias de comunicação, tendo que desenvolver uma agricultura de subsistência. Isto porque as terras mais férteis já estavam ocupadas pelos alemães, estimados em número de 70 mil indivíduos, que gozavam de certa prosperidade, devido à sua organização. A emigração italiana para a região foi contínua entre 1875 e 1892, quando entrou em decadência. A colônia que apresentava mais características italianas era Caxias do Sul, que no ano de 1898 já contava com 25 mil habitantes, quase todos italianos. Os colonos apresentavam uma alta taxa de reprodução, com uma média de 8-10 filhos, provocando um excedente populacional que tinha que buscar terras virgens em outras áreas.

Essas colônias italianas ficavam normalmente em regiões isoladas por matas. Esse isolamento representou barreiras enormes ao seu desenvolvimento, como para escoar a sua produção devido às estradas que foram precariamente construídas e para encontrar mercado consumidor para seus produtos, além de trazer problemas como a falta de acesso à saúde e à educação. Por outro lado, esse isolamento permitiu a manutenção de usos e costumes italianos, onde foi possível a "reprodução orgânica de um tipo de sociedade vêneta de fins do século XIX, tradicionalista e católica".

A influência italiana ficou visível no panorama arquitetônico da região, onde até as casas de madeira tinham telhado inclinado para facilitar o deslizamento de uma neve que não viria mais. Mas a influência italiana foi além disso, sendo visível no modelo de família patriarcal, na alimentação (pão, polenta, toucinho) e também na língua, sendo que o dialeto vêneto predominou na região por muitos anos e, ainda hoje, empréstimos linguísticos vênetos são usados nas áreas de colonização italiana.

Inicialmente, 95% dos italianos nos estados sulinos estavam dedicados à agricultura. Isso se devia à uma carência de demanda em algumas áreas, sobretudo a industrial, praticamente inexistente, e no artesanato urbano. Isso fazia com que alguns operários migrassem para os países do Prata (Argentina e Uruguai) em busca de outros campos de trabalho. O subproletariado que não desejava viver do trabalho agrícola tinha que procurar as capitais, como Porto Alegre. Com o decorrer do tempo, tanto nas colônias como nos centros urbanos, assistiu-se a uma diversificação das atividades e italianos passaram a se dedicar também ao comércio. Em 1920, as fábricas pertencentes a italianos eram apenas 227 no Rio Grande do Sul, 56 em Santa Catarina e 61 no Paraná, mostrando que a acumulação de poupança não foi muito satisfatória entre os imigrantes italianos no Sul.

Os italianos se espalharam por várias partes do Rio Grande do Sul, e muitas outras colônias foram criadas por particulares, que vendiam as terras aos italianos. Nessas terras, os imigrantes italianos começaram a cultivar uvas e a produzir vinhos. Atualmente, essas áreas de colonização italiana produzem os melhores vinhos do Brasil.

Em Santa Catarina, os colonos que vieram do norte da Itália no final do século XIX fugindo da pobreza se estabeleceram principalmente no sul do estado. Hoje, seus descendentes representam quase metade da população catarinense e ocupam posição de destaque na economia através da vinicultura e da produção de grãos, queijos e embutidos. O turismo rural encontra terreno fértil na região de Criciúma, Urussanga e Orleans, onde antigos casarões coloniais e cantinas típicas dividem a atenção com obras de arte como o Paredão do Zé Diabo e o Museu ao Ar Livre, que retrata a vida dos primeiros imigrantes.

Nas colônias do Sul do Brasil, os imigrantes italianos puderam se agrupar no seu próprio grupo étnico, onde podiam falar seus dialetos de origem e manter sua cultura e tradições. A imigração italiana para o Brasil meridional foi muito importante para o desenvolvimento econômico, assim como para a cultura e formação étnica da população.